O GÊNERO PERFIL
Publicar o perfil de
determinada celebridade, naturalmente desperta no público leitor a
expectativa de saber os pormenores da vida privada do perfilado. O
público, certamente, espera que esse conteúdo venha recheado com
detalhes escondidos, escanda-los e fatos nunca expostos. Esperarão
também relatos que expliquem os pormenores por trás dos fatos ditos
diretamente da fonte (perfilado), com seu conteúdo na medida certa
para saciar os leitores famintos por novidades referentes ao
perfilado.
Depois do contato
com os textos
Síndrome
de Estocolmo: Jornalista em sequestro,
ROCCO,
1999; e Chico dá Samba, FREIRE, 1968; desenvolvemos uma linha de
raciocínio em relação a estes textos. Essa leitura pode não
esclarecer teoricamente a essência do perfil, mas nos traz elementos
preciosos na relação jornalista e perfilado para manter o
equilíbrio nesse envolvimento, ou seja, o profissionalismo, a ética
e a moral, fazem parte desse contrato de cumplicidades.
No perfil Chico da
Samba, por exemplo, ocorre um estilo “apaixonado”, que foi
escrito com envolvimento emocional do jornalista, e este, claramente
coloca ali opiniões sobre o perfilado, de tal forma que pela sua
maneira de descrevê-lo expõe no texto, trechos dignos de um fã e
admirador, explicitando o grau de envolvimento devido à amizade entre
eles. “Enquanto a relação entre jornalista x personagem
vai se aprofundando, adquire também características idênticas a um
caso de amor”
(ROCCO,
1999). Chico da Samba, traz relatos e comentários que no seu
contexto evidenciam fatores qualitativos da personagem, favorecendo,
promovendo, formando uma imagem de bom moço, mesmo nos momentos que
trata minimamente seus aspectos individuais negativos de forma
simpática.
Não fosse a
inegável posição de celebridade ocupada, Chico da Samba, não
despertaria interesse ou curiosidade maior sobre o perfilado, que não
seja dos seus fãs, ou seja, trata-se de um perfil “plano”. Claro,
tratar-se de uma celebridade, mas os fatos descritos no perfil em questão, soam com um romantismo quase pedante presente na
maneira em que foi escrito, e seria dificilmente rejeitado pelo
perfilado.
Mas como a própria
ROCCO, Fiammetta comenta no início do seu texto, “o jornalismo que
eu mais gosto é sobre pessoas”. Esse jornalismo sobre pessoa, tem
realmente que ser vibrante, interessante, tem que explorar os
extremos do perfilado, com uma boa provocação, pode nascer fatos
ricos de história, coisa que despertam curiosidade dos leitores, um
bom perfil não tem que ser só uma descrição perfeita do
perfilado, não pode ter como intenção “endeusar”, mas tornar o
perfilado uma figura interessante e enigmática que desperte a
atenção dos leitores.
Falando de aceitação
da redação final por conta do perfilado, é como se tivéssemos
duas linhas que seguem em sentidos opostos. Para agradar o leitor, o
jornalista utiliza de toda informação colhida acerca do perfilado e
literalmente relata-os em sua totalidade com intuito de despertar
interesse do leitor, neste caso, é bem provável que esses fatos
sejam repudiados pelo perfilado. O que não acontece logicamente num
perfil que deixa o perfilado em uma posição totalmente cômoda. Mas
essa briga de braço, chega num meio-termo diante da adoção de um
contrato que dita as regras dessa relação, mas, ao mesmo tempo, impede que um bom trabalho seja feito, pois impor regras ao que deve
ser dito, é interferir diretamente na liberdade do jornalista de
aprofundar em assuntos às vezes incômodos para o perfilado, mas bem
mais relevantes acerca aos olhos do leitor.
Essa relação entre
jornalista e perfilado, no fundo, até pode ser ilustrado como
semelhante a um namoro, é possível identificar todas as fases que
passam um casal, desde o momento do interesse pelo outro, da forma
como é intermediado esse encontro, do ápice da relação e do
trágico fim, que pode vir acompanhado de litígio.
Passando por todas
essas fases de forma equilibrada, nasce o fruto dessa relação, o
perfil. Com a diferença de que no caso do perfil, ao contrário de um
bebê, ele se estagna no tempo e não acompanha o crescimento do
perfilado, exceto caso a seu tempo, nasça um novo perfil, e assim
sucessivamente sendo superado pelo seu “irmão” mais novo.
A coleta de dados
para se elaborar um bom perfil não é tarefa fácil, e este é só
um das várias etapas da produção, que vai desde a entrevistar, o
acompanhar, a pesquisar, uma visita ao currículo, disposição das
regras e outros elementos que devem guiar o jornalista para um
resultado interessante. Ainda assim, tomando todos esses
cuidados, certamente haverá algum descontentamento por parte do
perfilado, Rocco (2009) diz o seguinte “O fato é que muitos dos
retratados nesses perfis passaram a odiar a publicação final e se
arrependeram tremendamente de terem cooperado com o jornalista.”
Neste sentido,
ilustra bem o trecho seguinte, que ilustra outra relação
comparativa nesse processo de construção do perfil
Qualquer jornalista
que não seja demasiado obtuso ou cheio de si para perceber o que
está acontecendo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável.
Ele é uma espécie de confidente que se nutre da vaidade, da
ignorância ou da solidão das pessoas, conquistando-lhes a confiança
e traindo-os sem nenhum remorso. Tal como a viúva confiante, que
acorda um belo dia e descobre que aquele rapaz encantador e todas as
suas economias sumiram, o indivíduo que consente ser tema de um
escrito não-ficcional aprende – quando o artigo ou livro aparece –
a sua
própria dura lição ROCCO, MALCON, apud MALCOLM, 1990, p. 11).
Concluímos que a
melhor forma para se fazer um perfil é fugir do perfil plano,
instigar o escritor, incomodar o perfilado e encantar os leitores.
Por Demetrinho de Arruda Filho
Texto oriundo dos estudos na graduação.